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maio 31, 2010

Moda e Transitoriedade


Nascer, crescer, reproduzir-se, envelhecer e morrer.

São estas, como aprendemos no ensino fundamental, as etapas da vida.

Os organismos funcionam como máquinas e, a não ser que um acidente de percurso aconteça, cumprimos inexoravelmente o caminho vital da transitoriedade.


Como disse Lulu Santos, “tudo passa...”.


Interessante é pensar que uma atividade considerada ainda, embora cada vez menos, fútil possa seguir, via de regra, o mesmo destino do dito “bem maior”: a vida.
O “império do efêmero” também nasce, cresce, reproduz-se, envelhece e morre.
Moda que é moda morre porque deu certo.
Pode até morrer antes, mas aí não poderá ser chamada de moda. Será “fade” (“murchar, desbotar, esvanecer”).
Moda é repetição. Na estatística descritiva, moda é o elemento dentro de determinada amostragem que detém o maior número de repetições, não necessariamente único.
Nas passarelas da vida também.
O ciclo da moda acontece entre a aceitação e a obsolescência dentro da organização social das aparências.
Sociedade paradoxalmente democrática, oligárquica e anárquica.
Democrática porque a condição sine qua non do sucesso de um produto de moda é a aceitação popular.
Oligárquica, pois para que um produto possa ser içado à moda deve ser aceito e difundido por um grupo “seleto”.
E anárquica porque a popularização só é possível graças à produção em série na qual o controle de qualidade não condiz com o barateamento do produto, como se pode comprovar nas cadeias “fast fashion” ou na pirataria.
Segundo o filósofo Gilles Lipovetsky, a moda – fenômeno ocidental que aparece no final da Idade Média, com suas formas de vestir feminina e masculina diferenciadas e o gosto pela “novidade” graças, inicialmente, às cruzadas religiosas – “é o espelho mesmo da sociedade”.
Tão frívola quanto seus agentes, a moda vive de imagens e sonhos.
Sonhos narcísicos, em sua grande maioria.
Pela capacidade de “falar” por seus usuários, de representar o “zeitgeist”, a moda – munida das “armas” e “armadilhas” do marketing - exerce sobre a sociedade 2 métodos freudianos: a hipnose e a catarse.

Hipnóticas seriam as vitrines, as revistas, as celebridades nos tapetes vermelhos, na tela de Hollywood, Bollywood ou na “novela das 8”.
Estas mídias difusoras da moda são tão poderosas que uma revista deste segmento – a Vogue - é chamada de “bíblia”!

Se sob a ótica da psicologia, “catarse é o experimentar da liberdade em relação a alguma situação opressora, tanto as psicológicas quanto as cotidianas, através de uma resolução que se apresente de forma eficaz o suficiente para que tal ocorra”, sob a ótica de um consumidor “fashion victim”, um cartão de crédito pode significar um passaporte para a liberdade, uma carta de alforria, dado que o livra da opressão (a de não possuir “a última moda da última semana”).

Em seu texto intitulado “A Transitoriedade”, Freud (1916) conta estar passeando com um amigo por um jardim florido, comentando a respeito da transitoriedade da beleza, a certeza de que com o passar daquela estação as flores estariam a murchar e morreriam. E ao contrário do que se esperava, Freud não viu nesta constatação um motivo para lamentos, mas sim uma renovação da vida.

Assim pode-se “dizer” das “fashion weeks”: as semanas de moda bianuais ao redor das capitais e nas periferias da moda mundiais renovam guarda roupas, sonhos e a carreira de estilistas – ou não.

Tal renovação ocorre menos em função da mudança de estações, já que a tecnologia e o aquecimento global permitem basicamente que o mesmo artigo (jeans ou mini saia, por exemplo) seja vestido o ano inteiro nos ambientes “indoor” das cidades.
Acima de 40º ou abaixo de 0º, biquínis e overcoats, peças compulsoriamente funcionais, mudam de forma “permanecendo iguais”.
A função dos estilistas é fazer sonhar. Cada mudança de estação traz uma promessa de beleza, satisfação, serenidade, orgulho. E desejo.
A roupa expressa anseios sociais, é diferente na guerra e em tempos de paz.
Anseios sociais são objetos de estudo de bureaux de pesquisa de comportamento. Através de análises meticulosas, essas empresas conseguem atestar com alguma antecedência tendências futuras. No design de moda ou de interiores, na propaganda e até mesmo na comunicação de empresas de diversos setores com a sociedade.

Atualmente, estamos “dark”, mas há 2 anos estávamos “green”.
Tais pesquisas de tendência são insumos criativos nas mãos dos estilistas.
Se mudamos à medida que o mundo muda, o que fazer com o estoque de panos que não mais refletem o “estar do nosso ser”?

Transitoriedade, efemeridade, modismos...
À primeira vista, pode até parecer que ao consumidor resta tão somente a imposição.
Mas, ao analisarmos mais profundamente esta criatura dita racional, pode-se concluir que o que lhe cobre é tão somente um reflexo da “insustentável leveza do ser”.

Vídeo: FFW